Estudos apresentados no ASCO 2018 podem mudar a prática médica

Principal evento de oncologia no mundo trouxe novidades importantes para o tratamento de câncer de pulmão, mama e rim

No início de junho, aconteceu o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), com atualizações importantes para o tratamento de diversos tipos de câncer.

Os estudos para neoplasias de pulmão, mama e rim foram destaque no congresso, comprovando ganhos em sobrevida e qualidade de vida para os pacientes.

O Dr. Ivan Moreira Junior, oncologista e gerente médico do Grupo CON, aponta a imunoterapia como uma das protagonistas do ASCO 2018. “Os trabalhos apresentados no congresso consolidaram a imunoterapia como um tratamento cada vez mais relevante, principalmente para o câncer de pulmão não pequenas células, que representa aproximadamente 85% dos casos desse tipo de tumor. O volume de pacientes que se beneficiam dessa terapia é ainda maior do que imaginávamos”.

A imunoterapia traz benefícios quando trabalhada isoladamente em pacientes metastáticos, mas também quando associada à quimioterapia, melhorando o resultando do tratamento.

“Outro estudo atualizado no congresso diz respeito à combinação de dois medicamentos de imunoterapia, que também se mostrou positiva. Ou seja, é uma terapia que ganha cada vez mais espaço, principalmente na área do câncer de pulmão. Já temos dados comprovados de ganho em sobrevida, além de ser uma droga menos tóxica que a quimioterapia, fator fundamental para a qualidade de vida do paciente”, completa o Dr. Ivan.

Por outro lado, a desvantagem do tratamento são os altos custos envolvidos, como aponta o oncologista. “Já temos os medicamentos no Brasil, que inclusive são utilizados no CON, mas precisamos seguir o estudo à risca e aplicar a terapia nos casos em que o benefício é comprovado”, explica.

As atualizações demonstradas no ASCO devem ser validadas pela Anvisa antes de serem adotadas na prática médica, o que pode acontecer em poucos meses.

O câncer de mama também esteve em evidência no ASCO com o estudo Tailorx, que comprovou que um número menor de pacientes necessita de quimioterapia. A ferramenta utilizada foi um teste genômico para avaliar o risco de recidiva em pacientes após a cirurgia de retirada do tumor.

O resultado deste exame, chamado Oncotype DX, fornece uma classificação de risco que ajuda o oncologista na tomada de decisão quanto ao tratamento a ser utilizado. “Pacientes que não têm linfonodos comprometidos na axila são classificados em grupos de baixo, médio ou alto risco de recidiva. Até então, a quimioterapia era indicada para pacientes de médio e alto risco, mas já havia dúvidas em relação aos casos de risco intermediário.

O estudo comprovou que a quimioterapia não é necessária para grande parte dessas pacientes”, explica o Dr. Ivan. “Infelizmente o exame é pouco acessível devido aos custos. Ainda assim, é uma discussão relevante quando se pensa em qualidade de vida para o paciente, principalmente, mas também em termos de gastos evitados com sessões de quimioterapia que não precisariam ser feitas. Os planos de saúde podem levar esse aspecto em consideração”.

Por fim, o Dr. Ivan destaca ainda os estudos relacionados ao câncer de rim, que já tem como tratamento padrão a terapias alvo moleculares e imunoterapia.

“O que muda é a indicação para retirada do rim em casos metastáticos, uma prática que parecia aumentar a sobrevida do paciente. Com a adoção da terapia alvo molecular, passamos a questionar a necessidade dessa cirurgia em larga escala, já que o tratamento se mostrou muito eficaz.

O estudo apresentado no ASCO demonstrou que essa decisão deve ser avaliada individualmente. Conseguimos, com isso, reduzir muito a quantidade de cirurgias que não trarão benefícios para o paciente ”.

Segundo o médico, a importância desses estudos reside no potencial de mudança da prática médica, com benefícios reais para o paciente. A questão da acessibilidade ainda é um entrave, por conta dos altos custos.

No entanto, o uso da imunoterapia para câncer de pulmão já é uma realidade, assim como a terapia alvo molecular para câncer de rim, que dispensa a cirurgia na maioria dos casos.